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Viajar nos anos 70

Marcações de hotéis

Quando surgiram as primeiras agências os clientes eram fiéis, não só à agencia como também ao funcionário em quem tinham de acreditar piamente, uma vez que não havia outra fonte de informação.

A agencia pedia folhetos dos hotéis e arquivava-os em pastas para mostrar aos clientes. Depois de selecionados as reservas faziam-se por carta,pois as chadas telefónicas era demasiado dispendiosas. Caso o cliente tivesse urgência podia-se reservar por telefone ou telex, mas a chamada era contada ao segundo e paga pelos clientes. Quem se lembra do bip dos contadores?

De resto, nas situações normais, reservava-se por carta ou telegrama. Estes últimos um pouco caros mas ainda assim mais económicos do que por telefone que, nessa altura, só era usado em casos extremos e urgentes.

O cliente pagava o preço do hotel, a margem da agencia e as comunicações.

Reservas de voos

Uma reserva aérea era feita por telefone diretamente para a companhia. Na companhia havia um caderno onde apontavam as reservas e, em Portugal, só perto de 1980 é que apareceu o TAPMATIC – plataforma que permitia consultar a disponibilidade dos voos, num ecrã preto com letras verdes a que só algumas agencias tinham acesso. Já cheirava a modernidade mas ainda se estava longe de imaginar o quanto esta indústria iria evoluir nos anos seguintes. Os bilhetes obviamente ainda eram emitidos à mão e cada agencia tinha um stock de bilhetes de cada companhia aérea,

Preenchidos à mão pela companhia, com o horário selecionado, origem destino, a classe do voo, bagagem e a base tarifária. Em baixo colocavam o preço e taxas se as houvesse. Tinha também um código de reserva dado pelo TAPMATIC ou por telefone e o bilhete era entregue com um cupon de voo, um por cada trajeto. Já no aeroporto, o cliente mostrava o bilhete, “a menina retirava o cupon” respectivo e dava o cartão de embarque. Simples? Nem por isso mas a emoção devia ser enorme numa altura em que viajar não era tão vulgar.

Para a agência o trabalho ainda não tinha terminado e ao final de cada mês, juntava-se todos os bilhetes, somavam, deduziam a comissão (que normalmente era de 9% em quase todas as companhias), emitiam um cheque, metiam num envelope junto com um relatório de vendas e íam entregar o pagamento em mão a cada companhia aérea.

Ainda a acrescentar que para emitir  os bilhetes de avião tinham de os escrever com a Bic Laranja “escrita fina”, porque a Bic Cristal não servia pois a caneta era grossa demais pelo que não se conseguia fazer força suficiente de modo a passar pelo químico dos quatro cupons (máximo permitido por cada bilhete). Este último paragrafo merece um tutorial no youtube para que pessoas nascidas depois dos anos 80 o consigam entender.

Ainda na emissão dos bilhetes nos anos 70, nas palavras da Cristina Nunes, Técnica de Turismo na Across, relembra que na época a palavra era sagrada e quando do outro lado o funcionário da companhia dizia “reserva confirmada” essa reserva era uma certeza.

Mas será que isso quer dizer que não havia overbookings?

– Havia, diz. Às vezes até por causa de uma corrente de ar.

Como?!? A Cristina Nunes, explica:

– As reservas eram colocadas em papelinhos coladas a um quadro de cortiça com pioneses. Certa vez uma corrente de ar fez voar alguns dos papelinhos e, como não repararam, continuaram a vender. De modo que para o voo da Monarch Airlines a 31 de Agosto de 1976, apareceram pessoas suficientes para dois voos. Na altura as pessoas conheciam-se e ajudavam-se. Era comum no aeroporto as pessoas andarem a correr a pedir favores uns aos outros. Fomos para as operações da TAP, falar com o representante da companhia que resolveu a situação arranjando um segundo plano de voo para o mesmo avião, nesse mesmo dia. Claro, que não é só de boa vontade que se tornava possível resolver imprevistos desta natureza, a verdade é que na época o espaço aéreo de Lisboa não era, nem de perto concorrido como é atualmente.